• Caroline Gomes

Seis pedaços

eu sou o excesso de mim mesma

minha própria correnteza

no meio de tanta certeza o que me falta é clareza

me navego sem rumo e sem remo

me tomo e me atento

para não deixar a água parar

porque eu nasci para transbordar



Pedaço 1 - Dezembro de 2001

Quando eu era pequena, só desenhava com lápis grafite.. Vez ou outra usava a cor vermelha mas de modo geral, aquela caixa de lápis de cor me incomodava.. Para que tanta cor?

Para que tanto brilho?


em 2001 a vida mudou

a morte chegou

meu pai levou

e a caixa de lápis de cor for aberta


daí em diante tudo mudou

cresci crescida

cheia de feridas coloridas


uma infância descabida nomeio de mim

o único papel claro era o que eu usada para desenhar

de resto, tudo veio a se misturar

entre copos de cerveja, whishy, campanhe, vodka ou vinho

tudo se quebrou

e quase mãe ela virou

crescida menina de 11, 12 anos de idade


Pedaço 2: algum dos meus diários

Consegui deixar quase tudo numa caixa só..

e foi difícil

Convites, pingentes, cartas, objetos…

[usar no caderno]

termina com a minha data de nascimento e a frase…



Pedaço 3 - família é muito importante para mim …


“Fecha as perna, menina.” Senta direito! Carol, pq vc raspou o cabelo? Vou te comprar uma peruca.

Pedaço 4 - A mãe

ninguém entende nada

finge harmonia para não estragar a família

mas o que ninguém vê é que já estragou e no tempo ficou

era uma vez uma família tradicional brasileira

era tão perfeita que quebrou

tamanha perfeição incomodou

e viúva ela ficou

junto da viúvez veio a solidão

não bastante o luto, veio a exclusão

amigas ela não tinha não

porque ameaça virou então

onde já se viu não ter dono

a dona dos filhos e do mundo todo

era viúva da sociedade e não sabia

o gosto tóxico daquilo que bebia

bebeu tanto que se afogou

entre copos de whisky e cerveja ela mergulhou

numa piscina de caipirinha ela tentou

tirar a sua vida mas se salvou

o peso da viúva sobre os filhos

o peso dos filhos de mentir na escola

o peso da família que não se viu

e o alcoolismo consumiu

“é melhor não falar sobre isso né?”

ela é fruto da sociedade

ela é cheia de verdade

ela é um poço de vaidade

daqueles que não entendem nada

além da família perfeita


Pedaço 5 - A cuidadora

A vó sofre

por ver o mundo passar

e ninguém levar ela para dançar


eu sofro vendo sua falta de dança

ou de ver tanta esperança

quais escolhas fizemos?

quando deixamos de dançar?

será que precisa sempre ser assim?

do começo ao quase fim… ela cuida de mim

e de todo mundo


quem vai cuidar dela?

ou melhor, quando irão deixar ela se cuidar?

às vezes parece que falta pouco para o mundo acabar

e a terceira guerra começar

mas mesmo assim, continuamos a cuidar

na esperança de não pecar

fazer o certo

e rezar


santos, santas, são longuinho me ajuda a achar minha fé que eu dou três pulinhos

Pedaço 6 - o mar dentro de mim

afundou

dentro de tudo que contaram para ela

a menina segurou respirou fundo e seguiu

mesmo sem se entender, ela sempre tenta resolver

o que ela resolve ninguém sabe

o que sabemos é que tudo era e um dia mudou

num passado nem tão distante ficou

ela queria contar para o mundo tudo o que sentia

mas seguia e sorria

como se nada acontecia

tentava ser sincera mas se mentia

num universo inventado ela não cabia

até que um dia a última máscara caiu

e o novo mundo se abriu

como doía

o clarão que se erguia

e no meio de tanta poeira e poesia

a menina descobriu que a dor que sentia

era do Sol se que abria






4 visualizações